Vila Mariana, em SP, vive boom imobiliário que parece não ter hora para acabar

logo
06/08/2026Referências
Vila Mariana, em SP, vive boom imobiliário que parece não ter hora para acabar

Não deve existir nada tão emblemático, e certamente nada mais tocante, do que o filme "Amora", de Ana Petta, como documento visual a registrar as mudanças vertiginosas por que passa a cidade de São Paulo.


Ana viveu com os filhos Maria e Pedro numa vilinha com casas quase centenárias na Vila Mariana, e é da iminente verticalização da vila, e da luta de sua família e de seus vizinhos para deter esse processo, de que fala a produção.


O documentário foi lançado em 2025, bem antes da demolição dos imóveis, sem autorização da prefeitura, no último dia 13, sábado da estreia do Brasil na Copa, contra Marrocos. O alvará de demolição havia caducado e, segundo os moradores, ainda caberia recurso à decisão do Conpresp pelo arquivamento da abertura do processo.


Responsável pela conservação do patrimônio cultural, histórico e ambiental da cidade, o órgão considerou que os imóveis estavam descaracterizados e em mau estado de conservação. O processo levou 13 anos para começar a ser apreciado, em 2019.


A Vila Mariana, lar de cerca de 130 mil pessoas, é um distrito em total transformação.


Segundo o Secovi, 4.748 apartamentos novos foram lançados entre junho de 2025 e maio deste ano; considerados 24 meses até maio, foram quase 11 mil unidades lançadas, número apreciável para uma região já bastante valorizada, com metro quadrado cotado a R$ 14.759, 23% acima da média da capital, segundo números de junho do índice FipeZap.


Se tomarmos como comparação distritos de perfis demográficos similares aos da Vila Mariana, o quadro fica ainda mais eloquente. Entre junho de 2025 e maio de 2026, Pinheiros teve 2.785 lançamentos; Perdizes, com metrô novo e tudo, 617; Moema, 3.020.


Grifes do mercado imobiliário levantam tapumes por ali: SKR, Vitacon, Trisul, Even, Helbor e outras têm projetos na região, servida por três linhas do metrô, possui equipamentos culturais importantes -duas unidades do Sesc, Cinemateca, Casa Modernista, Museu Lasar Segall, entre outros-, está na vizinhança dos parques Ibirapuera e da Aclimação e ainda engloba áreas ditas nobres como a Vila Clementino e a Chácara Klabin.


São da SKR dois projetos distintos na "cotê" Clementino da Mariana, o Casa Ibirapuera, em "joint" com a Cyrela, com vista desimpedida para o parque Ibirapuera, wellness club, quadra de tênis, spa e lounge bar; e o Leaf, na rua Loefgren, um vistoso empreendimento misto, com lajes corporativas, estúdios e apartamentos de 125 m² a 165 m².


O Casa Ibirapuera, segundo Rodrigo Putinato, CEO da SKR, já foi totalmente vendido; o Leaf tem 25% de suas unidades ainda disponíveis. O executivo destaca que a região tem "metrô, faculdades e hospitais" e pede produtos "super diferenciados".


"O Leaf tem vista incrível, lazer em andar alto, é um produto arquitetônico premiado", diz, aludindo ao reconhecimento em 2022 do Urban Design and Architecture Design Awards ao projeto com andares assimétricos e pilares ostensivamente expostos do escritório transnacional Perkins & Will.


A Vitacon também tem diversos empreendimentos no distrito, somando mais de 2.500 unidades com valor geral de vendas (VGV) de cerca de R$ 1,3 bilhão. Para João Henrique Firmino, diretor de Marketing da Vitacon, os produtos na região "têm o DNA dos demais da empresa na cidade", ou seja, são voltados para a locação de curta permanência e para atender especialmente às demandas dos millennials, público prioritário da Vitacon, que pede "mobilidade, vida comunitária e a integração das pessoas".


Na Vila Mariana, contudo, a vizinhança de universidades como Unifesp, ESPM e Belas Artes radicaliza a tese, com um morador ainda mais jovem a reclamar "ativações" e ambientes customizados -como um estúdio de produção de podcasts. Firmino diz que a Vitacon mantém "parcerias" regulares com universidades (como a FGV e o Insper) para fomentar inovações tecnológicas e para, por meio de pesquisas, entender melhor as demandas de seu público. Aprimorar a vedação acústica dos apartamentos e a digitalização, com todos os serviços em um mesmo aplicativo, foram alguns dos ganhos daí advindos, segundo o executivo.


No mais recente Mapa da Desigualdade, produzido pela Rede Nossa São Paulo, a Vila Mariana reafirmou alguns de seus bons ativos, especialmente em saúde e transporte. Vale destacar a longevidade de seu morador, cuja idade média ao morrer é de 79 anos -o que deixa o distrito no "Top 5" da categoria, atrás dos distritos de Alto de Pinheiros, Moema, Saúde e Perdizes.

Quer ficar por dentro de todas as novidades do setor?Acesse nossos artigos e inscreva-se na nossa Newsletter
Carregando...
2026 OBRASS. Todos os direitos reservados.